Bacalhau com natas: o segredo desse clássico português vai além da receita

Saturday 3 January 2026 15:06 - Patricia González
Bacalhau com natas: o segredo desse clássico português vai além da receita

Há alguns pratos que são adotados até parecerem herdados, mesmo que você nunca tenha colocado os pés na cozinha onde eles nasceram. O bacalhau com natas é um deles: não é preciso ir a Portugal nem correr atrás da receita original para torná-lo um clássico em casa, um daqueles que acabam virando "da família" por serem repetidos e apreciados por todos.

Basta vê-lo chegar à mesa - aquele prato ainda quente, com a borda manchada de creme e queijo, o centro borbulhando como se ainda estivesse quente - para entender que não se trata apenas de comer. Trata-se de voltar a um sentimento muito concreto: voltar para casa, para a família.

Em Portugal, esse gratinado tem sido, há décadas, uma maneira discreta de dizer "hoje é hora de cuidar de nós mesmos". Ele não se exibe, não precisa se exibir. É um prato de domingo sem relógio. É por isso que gosto de recorrer a ele quando chegam visitas e há algo para comemorar, mesmo que seja apenas estarmos juntos.

Hoje eu gostaria de compartilhar nossa receita com você e dizer a quais detalhes você precisa prestar atenção para que ela fique perfeita.


Dicas profissionais para torná-lo perfeito

O leite não deve ferver furiosamente

Nesse prato, o leite não é apenas um simples meio de cozimento: é o primeiro gesto que define a textura do bacalhau. Ele deve ser levado ao ponto em que pequenas bolhas comecem a aparecer, sem ferver violentamente. Se isso acontecer, o peixe encolhe e perde a suculência. Mantê-lo em uma fervura suave - mais próxima do escalfamento do que da fervura - permite que o bacalhau permaneça firme, mas ainda úmido, exatamente como deveria.

Reserve esse leite como se fosse um caldo

Depois que o bacalhau estiver cozido, o leite não será mais o mesmo. Ele absorveu parte de seu sabor e uma untuosidade natural que merece ser bem aproveitada. Usá-lo mais tarde para formar o creme - como nesta receita, incorporando-o pouco a pouco - evita que o prato se desfaça em sabores separados. Não se trata de um molho bechamel de um lado e peixe do outro, mas de uma ideia única e bem unida. Coar o molho antes de usá-lo é um gesto discreto, mas que eleva o resultado.

A farinha precisa de cozimento real, mesmo que não haja roux.

Adicionar a farinha diretamente à cebola e ao bacalhau funciona, desde que você dê tempo ao tempo. Esse minuto ou dois na panela, em fogo médio e sem dourar, é o que remove o sabor de farinha crua e dá lugar a um creme fino. Não se trata de cor ou escurecimento, apenas de cozimento. É um detalhe pequeno, quase invisível, mas que faz a diferença entre um molho adequado e um que seja realmente agradável.

O leite é adicionado pacientemente, mas observando a textura.

Adicionar o leite em terços não é um ritual vazio, mas uma maneira de controlar a ligação. Cada adição deve engrossar antes da próxima, mas sem levar a mistura a um ponto seco. A referência é simples: o creme deve cobrir a colher sem ficar duro. Isso mantém o brilho e a elasticidade e evita ter que "resgatar" o molho depois, algo que quase sempre prejudica sua delicadeza.

Batata meio passada não significa batata não escorrida.

Fritar ou escalfar as batatas até ficarem quase macias é exatamente o que o prato pede, mas o gesto decisivo vem depois. Escorrê-las bem e deixá-las descansar brevemente sobre um papel ou uma grelha evita que elas entrem no prato com gordura superficial ou umidade excessiva. Se entrarem oleosas, o prato inteiro ficará pesado; se entrarem úmidas, soltarão água no fundo.

O creme: duas maneiras possíveis, a mesma intenção

As natas (creme de leite) é colocado no final, mas há duas maneiras igualmente válidas de fazer isso. A maneira mais direta é despejá-lo por cima antes do gratinado, como sugerido na receita, desde que tudo esteja morno e não fervendo, para que ele não se desfaça. A opção mais homogênea é adicioná-lo ao creme já ligado fora do fogo, misturando-o suavemente antes de montar o prato. Em ambos os casos, o segredo é o mesmo: adicionar cremosidade sem perturbar o equilíbrio.

Queijo, com uma mão leve

O queijo emmental rala bem e dá o tom dourado que você espera quando tira o prato do forno, mas não deve ser muito forte. Uma camada fina, bem distribuída, é suficiente para dar cor e um toque tostado sem ofuscar o bacalhau ou o creme. Aqui, o queijo acompanha; ele não ocupa o centro do palco.

O forno finaliza o prato, o restante o refina.

Trinta e cinco minutos a 180 ºC fazem seu trabalho, mas o verdadeiro final é decidido fora do forno. Um descanso de cerca de dez minutos permite que o creme assente, que o corte fique mais limpo e que o sabor apareça com mais clareza. Servi-lo recém-saído do forno é tentador; servi-lo descansado é um gesto de habilidade.

Sal, sempre no final

Entre o bacalhau dessalgado, o leite reduzido e o queijo, o sal pode se tornar uma armadilha. Ajustá-lo quando o creme já está ligado e o todo está definido é a maneira mais segura de acertar. É o último gesto, pequeno e quase silencioso, mas que fecha o prato com equilíbrio.

Descubra nossa receita passo a passo

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Um clássico reconfortante para retornar

No final das contas, o que faz com que um prato se torne parte de nosso livro de receitas não é apenas o fato de ele ficar bom, mas também o fato de ele encontrar seu momento. Que você se atreva a prepará-lo em um domingo qualquer, que as pessoas em casa peçam novamente, que até perguntem quais são os truques para que ele fique perfeito. O bacalhau com creme tem essa virtude: ele entra quase que por acaso e, sem que você perceba, começa a fazer parte da memória da sua casa. Não é tanto a versão "autêntica" que importa, mas o fato de que, com o tempo, ela se torna sua. E aí acontece a melhor coisa: ele deixa de ser o prato de outra pessoa e começa a parecer seu.

Patricia GonzálezPatricia González
Apaixonada pela cozinha e pela boa comida, minha vida se move entre palavras bem escolhidas e colheres de madeira. Responsável, mas distraída. Sou jornalista e redatora com anos de experiência e encontrei meu canto ideal na França, onde trabalho como redatora para o Petitchef. Adoro bœuf bourguignon, mas sinto falta do salmorejo da minha mãe. Aqui, combino meu amor pela escrita e pelos sabores suculentos para compartilhar receitas e histórias de cozinha que espero te inspirem. Gosto da tortilla com cebola e pouco feita :)

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